Em O Almada, Machado de Assis revisita um episódio ocorrido no Rio de Janeiro colonial, em 1659, para construir uma narrativa poética marcada pelo humor, pela ironia e pela sátira. A obra acompanha uma disputa envolvendo figuras de autoridade religiosa, jurídica e política, transformando um acontecimento histórico em matéria para uma composição literária que questiona a pompa das instituições e o comportamento daqueles que ocupam posições de prestígio.
O poema gira em torno de Manuel de Sousa Almada, prelado administrador do Rio de Janeiro, e de Pedro de Mustre Portugal, ouvidor-geral da cidade. O episódio que inspira a composição envolve uma agressão contra o tabelião Sebastião Ferreira Freire, seguida de uma investigação que alcança pessoas ligadas ao religioso. A partir desse conflito, desenvolve-se uma disputa que ultrapassa os limites de uma simples questão judicial e assume proporções públicas, religiosas e políticas.
Com uma estrutura inspirada na tradição dos poemas herói-cômicos, Machado emprega recursos da poesia épica para tratar de acontecimentos relativamente prosaicos. O contraste entre a grandiosidade da linguagem e a natureza das situações constitui um dos principais elementos de comicidade. A solenidade das personagens, suas ambições e suas reações exageradas tornam-se instrumentos para revelar as contradições da sociedade e a fragilidade das pretensões humanas.
O Almada também permite observar aspectos da organização social do Brasil colonial, especialmente as relações entre Igreja, administração pública, justiça e poder político. A obra apresenta uma sociedade em que títulos, hierarquias e interesses institucionais exercem influência sobre a vida coletiva. Ao transformar essas circunstâncias em poesia, Machado demonstra sua capacidade de encontrar matéria literária na história e de explorar o ridículo escondido sob aparências respeitáveis.
Publicado integralmente de maneira póstuma, em 1910, o poema permaneceu relativamente menos conhecido que os romances e contos do autor. Sua composição fragmentária e sua natureza inacabada, contudo, não diminuem o interesse literário e histórico do texto. Pelo contrário, oferecem uma oportunidade singular de conhecer outra faceta da produção machadiana.
Esta edição apresenta ao leitor uma obra importante para compreender a diversidade da criação de Machado de Assis, reunindo poesia, crítica social, referências históricas e humor refinado em uma composição que dialoga com a tradição literária clássica e com a realidade brasileira.


























